Luso-brasileiros também merecem cotas

              Luso-brasileiros também merecem cotas


O debate sobre cotas raciais para cidadãos negros e pardos em universidades públicas brasileiras varia de acordo com a ideologia política. Seu apoio está ligado aos movimentos sociais de esquerda e a discordância fica a cargo dos discursos liberais da direita conservadora. Isso é fato conhecido. Sob a óptica dos defensores das cotas, o argumento central gira em torno da reparação social, que estaria atrelada à condição de abandono na qual os povos negros e indígenas ficaram após a escravidão. É um argumento honesto com lastro na realidade histórica. Já para aqueles que são contra o uso de cotas raciais, o preparo para a prova de avaliação deveria ser o fator determinante para a pessoa ingressar em uma universidade pública, independentemente da cor de quem estiver disputando a vaga, pois acreditam que qualquer segregação racial seja um demérito para com a capacidade intelectual dos povos negros e indígenas. Essa abordagem também faz sentido. Como se posicionar diante desse dilema sem menosprezar a intelectualidade das pessoas ou negar a importância de uma reparação histórica?


A desigualdade social no país, entre outros fatores, está intimamente ligada ao fato do Brasil ter sido uma ex-colônia portuguesa, que utilizou mão de obra escrava, tanto indígena quanto de afrodescendente. Os nobres portugueses que estabeleceram moradia no Brasil e enriqueceram às custas desse tipo de comércio ou força de trabalho continuaram com suas riquezas, que posteriormente geraram fortunas e muitos desses senhores dão sobrenome às famílias mais ricas e poderosas do país. Muitos descendentes fazem parte inclusive da família real portuguesa. Aquela que os neo-monarquistas brasileiros insistem em devanear uma volta à regência nacional. Não seria importante mencionar esse fato na busca de uma conjuntura mais completa do problema?  


Enquanto os teóricos de esquerda e direita tergiversam sobre a legitimidade das premissas opostas, os descendentes de nobres portugueses passam despercebidos do debate público sobre as cotas raciais. Ainda que o objetivo dessa discussão não seja algo mirabolante como taxar as grandes fortunas portuguesas, algo certamente proposto por algum radical de esquerda, a proposta que vem em mente segue uma linha mais espontânea do que coercitiva. Ao colocar os brasileiros afortunados, descendentes de nobres portugueses, como pivôs da problemática das cotas raciais, debate giraria em torno de constranger e ‘’comemorar’’ junto à essas famílias para que ponderem que muitos dos benefícios usufruídos atualmente tem suas origens na escravidão.


O esperado é que alguns desses senhores, que em essência se dizem socialistas e terceirizam para o Estado a culpa que sentem por seus privilégios, possam enxergar a oportunidade de colaborar de uma forma mais efetiva na dita reparação histórica que defendem, com a doação de bolsas de estudo em universidades particulares ou em cursos preparatórios para universidades federais, sendo provocados pela opinião pública para fazerem isso sem depender do assalariado pagador de imposto, que nada tem de culpa em toda essa situação. Só os realmente nobres concordariam… E os milionários socialistas luso-brasileiros teriam a chance de expiar parte da culpa que direcionam para a sociedade como um todo. Na posição de homens brancos privilegiados, poderiam iniciar a mudança a partir deles mesmos. É a bondade humana rousseauniana posta à prova. 


Airton Nunes Dias


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